Introdução
Nesta entrevista com Rui Marques, CFO do Grupo Academy, falámos sobre o estado atual e futuro do fitness em Portugal, os desafios de liderança, os erros mais comuns na gestão de clubes e a importância da profissionalização do setor.
Entrevista
Como vês o momento atual do setor do fitness em Portugal?
Rui Marques: Há dois movimentos relevantes a acontecer atualmente. Por um lado, há uma forte consolidação dos grandes operadores, que já representam mais de 50% do mercado e estão cada vez mais profissionalizados.
Por outro lado, existe uma polarização: o middle market praticamente desapareceu, enquanto crescem estúdios de treino personalizado, liderados por empreendedores que já estavam no setor.
A boa notícia é que o mercado está a crescer. Mas isso exige cada vez mais profissionalismo e gestão rigorosa.
Quais são os principais erros que encontras nos negócios de fitness?
Rui Marques: Os erros existem em todos os níveis, mas destacaria três: nos microoperadores, o erro mais comum é avançar apenas com base no sonho e na paixão, sem um estudo de viabilidade económico-financeira.
No mercado em geral, noto muitas vezes uma falta de clareza na proposta de valor e no posicionamento — há quem diga que compete no low cost ou no premium, mas na prática não está realmente em nenhum dos lados.
Já nos grandes operadores, o maior desafio continua a ser a gestão de recursos humanos. É preciso trabalhar a employee value proposition para atrair, motivar e reter talento.
Que conselho deixarias para o mercado do fitness nos próximos anos?
Rui Marques: Destacaria dois conselhos muito claros. O primeiro é a profissionalização: negócios de fitness devem ser geridos por gestores com competências sólidas de gestão.
O segundo é a formalização: as empresas precisam de adotar práticas empresariais estruturadas, evitando a informalidade.
Estes dois pilares são fundamentais para aumentar a credibilidade do setor.
Como imaginas o setor do fitness em 2030, com a tecnologia e a personalização?
Rui Marques: O papel da tecnologia vai depender muito do modelo de negócio. Nos clubes low cost e staffless gym, a tecnologia é a base da experiência do cliente. Nos clubes premium, os profissionais são insubstituíveis e terão sempre um papel central.
Mais do que a importância da tecnologia na experiência de cliente no clube, o futuro está em experiências híbridas e omnicanalidade. O cliente quer poder treinar onde quiser: no clube, em casa, online, em viagem. E esse é o caminho: dar liberdade ao cliente de escolher “o que quiser, quando quiser, como quiser”. O que importa é que a marca ofereça essa flexibilidade.
Quais as competências que um gestor e um líder precisam aos dias de hoje?
Rui Marques: Gestão e liderança são papéis diferentes. A gestão está mais focada para o planeamento, organização e controlo — ou seja, essencialmente nos números e nos processos. Já a liderança tem o foco nas pessoas, tem a ver com alinhar, motivar e inspirar pessoas.
O desafio atual é que os gestores de clubes precisam de ser também líderes. Não é fácil, mas é isso que distingue quem realmente se destaca no setor.
Como olhas para o tema da felicidade nas organizações?
Rui Marques: A felicidade não deve ser tratada de forma leviana, como uma moda ou trend para usar no LinkedIn. É um tema sério e deve ser visto de forma científica.
Há fatores que fazem a diferença: uma liderança transformacional e visionária, um ambiente de justiça, comunicação e segurança, e ainda fatores motivacionais como autonomia, pertença, crescimento e significado.
Acrescentaria ainda um aspeto essencial: os colaboradores precisam de estar em flow. Ou seja, os desafios têm de estar equilibrados com as suas competências. Quando o desafio é demasiado grande, gera ansiedade; quando é demasiado pequeno, gera aborrecimento.
Conclusão
A entrevista com Rui Marques deixa-nos um mensagem clara: os gestores precisam de investir em conhecimento, planear a longo prazo e estar preparados para se reinventar. Só assim o setor continuará a crescer de forma sustentável e a ganhar relevância.
E tu, como imaginas o fitness em Portugal em 2030? Que mudanças já sentes no teu clube ou ginásio? Partilha connosco nos comentários.
