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Artigo

6º Episódio – Entrevista com Francisco Seita

Introdução

O Francisco Seita é CEO do Grupo BLIVE, uma marca nascida no Alentejo que hoje está presente em várias regiões do país, incluindo Lisboa. Neste episódio do podcast Fitness Business – Ask The Experts, falou connosco sobre os bastidores da expansão, os desafios do recrutamento fora dos grandes centros urbanos e a importância de usarmos a tecnologia, incluindo IA, ao serviço das pessoas.


Entrevista

Como surgiu o BLIVE?

Francisco Seita: A história do BLIVE começa com o Marco Lobo, que foi meu professor na faculdade. Sempre lhe disse que um dia íamos abrir um ginásio juntos. Ele ria-se, mas aconteceu.

Começámos com 300 m², hoje temos uma unidade com 1400 m², criámos também o BLIVE Pilates e estamos agora com o SHAPE, um projeto com financiamento externo e uma visão de crescimento bastante ambiciosa.

Abrir no Alentejo ou em Lisboa são realidades muito diferentes?

Francisco Seita: Completamente diferentes. Em Lisboa há mais concorrência, mas também há mais procura. O desafio ali é saberes diferenciar-te no meio de tanto barulho. 

Já no Alentejo, por exemplo em Beja, muitas vezes o desafio é educar o mercado.

Fomos nós que tivemos de criar procura para determinadas ofertas. Abrimos um estúdio de pilates em Beja e as pessoas diziam: “Isso não vai resultar aqui. Isso é para Lisboa.” E hoje o estúdio funciona muito bem.

E o recrutamento? Que diferenças sentes entre regiões?

Francisco Seita: A diferença é enorme. Se abrimos um recrutamento em Lisboa, em poucos dias temos 20 entrevistas marcadas. Em Beja, podemos não ter nenhuma candidatura.

Lá recorremos mais aos estágios. O Marco, sendo docente no Politécnico, facilita esse contacto. Temos estágios vindos do Politécnico, da Academy e também da licenciatura em desporto. Esse é o nosso funil de recrutamento aqui.

Em Lisboa, o processo é muito mais direto. Publicas a vaga e aparecem candidatos. Em Beja, já sabemos que temos de trabalhar o recrutamento de forma diferente — antecipar, formar e criar pipeline com tempo.

E tu vês isso como um desafio ou como uma vantagem?

Francisco Seita: É um desafio, claro. Mas quem opera tem de aprender a viver com isso. O que fazemos é criar estratégias para reduzir esse desafio. Juntamos regularmente as equipas de Lisboa, Évora e Beja em formações, para reforçar a cultura de marca e promover o alinhamento.

“A parte técnica ensina-se. Os valores têm de estar lá desde o início.”

Também desenvolvemos uma plataforma de formação interna. Os novos colaboradores têm de passar por lá: cursos técnicos e outros sobre atendimento, cultura, comportamento com o cliente.

E claro, filtramos muito bem logo no recrutamento.

Como identificam essa compatibilidade de valores?

Francisco Seita: Fazemos uma coisa muito simples: perguntamos à pessoa quais são os seus valores e não dizemos os nossos.

Se dissermos logo os nossos, é natural que a pessoa diga que sim, que se identifica. Mas quando é a pessoa a falar, nós ouvimos com atenção e percebemos logo se há ou não compatibilidade.

Claro que não acertamos sempre, mas já temos ali um bom filtro.

Já tomaste decisões de recrutamento pelas razões erradas?

Francisco Seita: Já. Por exemplo, quando abrimos o SHAPE no Príncipe Real, estávamos a fazer pré-venda e queríamos abrir na data ideal. Acelerámos o processo e contratámos a pessoa errada.

Resultado: tivemos de a despedir a meio da pré-venda. Recrutámos outra pessoa, também à pressa. Isso parou-nos o processo durante cerca de três semanas. E perdemos ali a oportunidade de abrir acima do break-even.

Aprendemos a lição: Nunca sacrifiques o recrutamento por causa de prazos. E, acima de tudo, se queres escalar, tens de montar um modelo de negócio que não dependa da tua presença diária.

E do ponto de vista da liderança, o que consideras mais importante?

Francisco Seita: Para mim, o mais importante é isto: os negócios são feitos para dar lucro, não para alimentar o ego.

Muitas vezes abrimos uma unidade nova porque queremos dizer que temos mais um espaço, mais sócios, mais faturação. Mas se no fim do ano não sobra nada, então o negócio não está a cumprir o seu papel.

E tecnologia? Que automatismos tens hoje no teu negócio?

Francisco Seita: Tenho estado muito dedicado a isso. É uma das minhas paixões.

No SHAPE, por exemplo, a adesão já é 100% digital. O price presentation é feito num tablet, o cliente assina o contrato no tablet, e passado 30 segundos já tem o contrato e o regulamento no e-mail.

Além disso, temos follow-ups automáticos para avaliações, reavaliações, nutrição, etc. Só com esses automatismos, a nossa taxa de no-show caiu mais de 30%.

Que métricas ou comportamentos achas que vale a pena monitorizar?

Francisco Seita: As métricas são sempre as mesmas: frequência, serviços utilizados, se o plano está a ser cumprido… O desafio é ter isso atualizado e em tempo real.

Já imaginaste poderes perguntar ao cliente, depois do treino:
– Qual foi o exercício que menos gostaste?
– Qual gostaste mais?
– Foi frustrante ou sentiste-te bem-sucedido?

E com isso, adaptar logo o plano seguinte. Isso é personalização real. E a IA vai ajudar-nos a chegar lá.

Como vês o crescimento do pilates e das boutiques?

Francisco Seita: O pilates está a crescer muito. A classe médica recomenda cada vez mais esta prática, sobretudo para pessoas com mais de 50 anos. Para eles, é seguro, acessível e eficaz. E nós sentimos isso na pele: nos nossos clubes, as aulas de pilates estavam sempre esgotadas. Isso mostrou-nos que havia procura real, só era preciso estruturá-la.

Foi a partir daí que decidimos lançar o BLIVE Pilates — um conceito mais especializado, com uma proposta diferenciadora e centrada na experiência.

Ao mesmo tempo, as boutiques estão a afirmar-se como o formato mais relevante para o futuro do fitness. Porquê?

  • Exigem menos metros quadrados e têm rendas mais baixas
  • Conseguem instalar-se mais perto da casa ou do trabalho do cliente
  • Permitem uma operação mais enxuta e focada
  • Respondem à procura por conveniência, personalização e especialização

E é aqui que os automatismos entram. Porque quanto mais pequenas e eficientes são as unidades, mais importante é que o tempo da equipa seja bem aplicado. 

Automatizar tarefas administrativas, como inscrições, agendamentos, follow-ups, não é substituir pessoas. É libertar as pessoas para estarem onde fazem mais diferença: com o cliente.


Conclusão

Nesta entrevista com Francisco Seita partilhou o que muitos gestores já sentem mas nem sempre dizem: a importância de parar, repensar processos, reforçar cultura e tomar decisões estratégicas com clareza.

O futuro do fitness passa pela integração inteligente da tecnologia — mas sem perder o toque humano. E, acima de tudo, passa por negócios sustentáveis.

E tu? Que automatismos já tens no teu clube? Partilha connosco nos comentários.

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