Introdução
José Júlio Castro é presidente da AGAP/Portugal Activo, a associação de ginásios e academias de Portugal e uma das mais representativas da Europa. Com uma visão clara sobre os desafios e oportunidades do setor, nesta entrevista fala-nos sobre a profissionalização da área do fitness, o papel das associações, a chegada dos grandes grupos internacionais e o que falta ainda mudar para impulsionar o setor em Portugal.
Entrevista
Como surgiu a obrigatoriedade de formação no fitness em Portugal?
José: Fomos nós os pioneiros nessa exigência. Começou com uma cédula profissional, e desde 2012 que é obrigatório ter um título profissional, com pelo menos 1.250 horas de formação. Não é qualquer curso rápido que dá acesso à profissão, e isso distingue-nos de muitos outros países europeus.
Ainda assim, há muito trabalho a fazer na comunicação dessa exigência, visto que muitas pessoas desconhecem a realidade da formação no nosso setor.
Quais foram as maiores mudanças nos últimos anos?
José: O mercado cresceu e tornou-se mais credível. Os empresários perceberam o valor do setor, a regulação melhorou, apesar de alguns erros no caminho, e a gestão dos ginásios tornou-se muito mais profissional.
Hoje temos uma gestão mais profissionalizada há muito mais especialização, mais qualidade na formação e uma maior exigência na prática. Isso traduziu-se numa reputação mais sólida junto do público.
Como é que vês o reconhecimento da Portugal Activo dentro e fora do país?
José: Felizmente, a Portugal Activo é hoje uma associação respeitada e isso vê-se tanto cá dentro como lá fora. Somos uma das mais representativas da Europa, com 850 clubes associados num universo de cerca de 1.300, o que é notável num modelo de adesão voluntária.
Esse reconhecimento é fruto de muitos anos de trabalho sério: contacto regular com ministérios, reguladores e parceiros, presença ativa durante momentos difíceis – como a pandemia – e um esforço contínuo de levar informação e formação ao setor.
Internamente, por vezes ainda sentimos alguma resistência ou falta de valorização, talvez por aquela velha ideia de que “santos da casa não fazem milagres”. Mas o respeito conquistado, especialmente junto de outras associações europeias, mostra que estamos no caminho certo.
Como é que os clubes independentes podem reagir à entrada das grandes cadeias?
José: Não vale a pena lutar contra a inevitabilidade. Mas os clubes independentes têm armas próprias: flexibilidade, proximidade com o cliente, sentido de comunidade, capacidade de resposta rápida. Se souberem explorar estas vantagens, continuam a ter espaço e relevância no mercado.
Também é fundamental investir em tecnologia e inovação, que quando usadas de forma inteligente, podem reduzir custos e melhorar o serviço.
Se pudesses mudar uma coisa no setor, qual seria?
José: Gostava de mudar a perceção que a Europa tem sobre o exercício físico. O IVA em Portugal continua nos 23%, quando há países com taxas muito mais baixas e maior taxa de penetração do fitness. Isso tem de ser debatido a nível europeu.
Também propusemos ao Governo medidas fiscais concretas: isenção de IRC para empresas que ofereçam ginásios aos colaboradores, e isenção de IRS e TSU nesses benefícios. São propostas com impacto direto na adesão à prática desportiva.
Além disso, temos de envolver mais a classe médica. O custo da inatividade física para o sistema de saúde é enorme e temos de estar todos alinhados para inverter essa tendência.
Conclusão
O setor do fitness em Portugal está mais profissional e preparado do que nunca, mas ainda enfrenta desafios importantes – da perceção pública à competitividade fiscal. Nesta entrevista com José Júlio Castro mostra que há caminhos possíveis, estratégias claras e oportunidades reais para quem lidera no setor.
E tu, o que achas que é preciso mudar para levar o fitness em Portugal a outro nível? Partilha a tua opinião nos comentários!